quarta-feira, 26 de outubro de 2016

[COTIDIANO] - Respeito. É o que espero e sonho.

Teófilo Benarrós de Mesquita
Fotos: Divulgação
Grupos de Bike de Manaus

Manaus/AM - Alguma coisa me chamava a participar do Manifesto. Inicialmente, parecia a oportunidade. Durante a campanha eleitoral (sou Assessor Parlamentar) fiquei distante do Pedal. Voltei pedalando com a família (Scarlett Syssi, Raul Carlos e Maria Cecília), no Passeio do Mindú e no Parque Lagoa do Japiim - mais o ritmo é mais ameno. No Grupo/Família AMAZONBIKE, onde é mais puxado, só pedalei uma vez nos últimos trinta dias. Então, a oportunidade me chamava.

Mas também a causa me atraía. Mais um ciclista foi COVARDEMENTE ASSASSINADO. Segundo informações, o quarto este ano. Isso me tocou profundamente. Fiquei sensibilizado e reflexivo. Já tive oportunidade de manifestar a algumas pessoas próximas (embora elas não ponham fé nisso, rs) que assim que conseguir reunir todas as condições - principalmente físicas e logísticas - pretendo me deslocar casa/trabalho/casa de bicicleta. Sei perfeitamente que para atingir esse nível precisarei, também, que haja mudança na mentalidade e atitude na conduta dos motoristas (eu também sou motora), pois eu também posso ser vítima de alguns tresloucados do volante.
Assim, saí de casa no Japiim II e, na companhia dos companheiros de AMAZONBIKE Ronny Duarte, Cristiane Amazonas e seus filhos Ronninho e Rafael e me desloquei para a Bola do Coroado, onde foi a concentração. Pensei que seria uma Manifestação. Mas foi o meu maior desafio até hoje - tanto físico como emocional.

Físico porque não foi um passeio. Foi pedal pesado - pelo menos para mim, que sou iniciante. Comecei a pedalar em junho, no Passeio do Mindú. Em julho conheci a Família AMAZONBIKE e passei a fazer roteiros mais longos e atrativos - Japiim/Largo de São Sebastião, Japiim/Orla do São Raimundo e Japiim/Ponta Negra. Mas sempre na turma e ritmo iniciante. O trajeto da Manifestação saiu do Eco Posto, na Bola do Coroado, tomou a Cosme Ferreira até a Bola do São José e seguiu para a Grande Circular, retornando em frente à Feira do Mutirão.

Ontem (25/10) peguei minha primeira carona com um Bike Anjo (*1). Obrigado Ronny Duarte, pela força, antes que eu batesse lata (*2). Foi na segunda de intermináveis ladeiras levemente íngremes, mas longas, o que exige muito esforço para vencer o obstáculo. Parei de contar na quinta ladeira, para não sofrer "abalo psicológico", rs. As outras, venci pela garra e movido pelo desafio de não parar, não bater lata.

A parada no local onde o ciclista foi atropelado, mudou por completo meu estado de espírito. Enquanto via a Ghost Bike (*3) sendo instalada no poste, entrei numa reflexão profunda. Respeito. Mobilidade e Respeito. É o que espero. Pedalar não é só esporte, lazer ou atitude... Pedalo sonhando com Mobilidade e Respeito e sonhando também em poder deixar meu carro na garagem.

Um dos organizadores da Manifestação, Adriano Silva, revelou que hoje 4% da população de Manaus/AM anda de bike pelas ruas da cidade. E, desse universo de 4%, a maioria [97%], usa a bicicleta para se deslocar ao local de trabalho. Me veio a mente algumas viagens minhas pelas principais avenidas das Zonas Norte e Leste - Max Teixeira, Parque das Laranjeiras, Cosme Ferreira (quando vou aos Estádios Carlos Zamith e Roberto Simonsen) e Grande Circular. Percebo um frenesi de ciclistas disputando espaço entre os carros, motos, ônibus, micros-ônibus e transeuntes.

Penso logo (embora possa estar errado), que são comerciários, trabalhadores da Construção Civil, autônomos, industriários, gente que sai de casa para espalhar currículo em busca de uma oportunidade profissional... Gente que rala. Gente que trabalha. Gente que talvez (posso estar errado de novo) tenha sido obrigado a vender aquele carro adquirido com muito suor, para pagar dívidas ou colocar comida na mesa dos familiares.

"Hoje estou colocando uma Ghost Biket aqui simbolizando a perda de um ciclista. Amanhã pode ser eu..." disse Adriano Silva em seu pronunciamento, quase de forma inconsciente, no exato momento em que eu pensava a mesma situação. Fui tomado por uma sensação de inconformismo. De repente começo a ouvir relatos dos ciclistas sobre desrespeito durante a Manifestação. "Um ônibus avançou num grupo, mais lá atrás, derrubando um rapaz que machucou a perna", disse uma pessoa ao meu lado. Com o trânsito reduzido a uma faixa (pois a faixa mais à direita, para onde estava programada nossa Manifestação, servia de estacionamento para veículos), os motoristas passavam e xingavam na cara dura... "Vão arranjar o que fazer, em vez de atrapalhar a vida dos outros". Custei a acreditar que escutei isso... Não creio até agora.
Respeito. É o que espero. Sonhando com políticas públicas favoráveis a quem queira utilizar-se de um meio de transporte alternativo.
Com cordiais
Saudações Fastianas!
Teófilo Benarrós de Mesquita


(*1) Dentre outros significados, o Bike Anjo é aquele ciclista mais experiente (e mais preparado para subir ladeiras íngremes que ajuda a conduzir o iniciante, encostando sua mão espalmada nas costas e dando mais velocidade ao "necessitado").

(*2) Ciclista que sente o ritmo pesado, cansa e sobra no pelotão. Para mim, é também aquele que não aguenta a ladeira, desce da bike e completa o desafio puxando a magrela, respirando exaustamente, rs.

(*3) Símbolo mundial, bicicleta pintada de branco, que marca o local onde um ciclista foi morto atropelado. Lembrando que a maioria dos atropelamentos têm características de ASSASSINATO.