Brasil se prepara para noite do Oscar, mais uma vez em "clima de final de Copa do Mundo"

Anna Karina de Carvalho
Agência Brasil de Comunicação
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Foto: Fundarpe - Divulgação

Rio de Janeiro/RJ - Faltando poucos dias para a cerimônia do Oscar, o Brasil vive novamente um fenômeno curioso e raro no audiovisual: um clima de torcida coletiva.

Como em Final de Copa do Mundo, bares, cinemas e cineclubes em várias cidades do país estão organizando transmissões da premiação, bolões, quizzes e sessões especiais para acompanhar a 98ª edição da maior noite do cinema mundial neste domingo (15/03).

Se Hollywood trata o Oscar como uma sofisticada engrenagem de campanhas e estratégias de estúdio, no Brasil ele ganhou novos contornos.

Há memes nas redes sociais, correntes de torcida e uma mobilização espontânea de cinéfilos que lembra muito o que aconteceu no ano passado com Ainda Estou Aqui, que recebeu o Oscar na categoria de Melhor Filme Internacional.

Agora, o centro dessa expectativa é O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, que chega a 2026 com indicações de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Ator para Wagner Moura.

Os números ajudam a explicar o entusiasmo. Mesmo competindo com superproduções de Hollywood, o filme brasileiro, segundo dados da FILME B, portal sobre o mercado de cinema no Brasil, lidera a bilheteria entre os indicados ao Oscar, com 2.464.071 ingressos vendidos e mais de R$ 50 milhões arrecadados.

Entre os 10 concorrentes ao prêmio principal da Academia Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos, organizadora da premiação, é também o longa de menor orçamento, um detalhe que torna sua trajetória ainda mais simbólica.

Em várias cidades brasileiras, a premiação será acompanhada coletivamente, um fenômeno que vem crescendo nos últimos anos.

No Rio de Janeiro/RJ, o produtor e exibidor Cavi Borges, do Grupo Estação e da Cavideo, prepara novamente uma grande festa cinéfila para a transmissão.

O evento começou há mais de 2 décadas de forma quase improvisada.

“Eu faço essa transmissão ao vivo do Oscar há 25 anos. Começou lá na Cobal do Mytown, quando a Cavideo estava nascendo. Era uma reunião pequena, cinéfila mesmo”.

Nos últimos anos, porém, o evento ganhou proporções inesperadas.

“No ano passado, foi o ápice: quase 2 mil pessoas. Cinco salas lotadas e um telão no saguão. Quando o Brasil ganhou o Oscar, o Cinema tremeu. Foi histórico”.

Para 2026, a expectativa é ainda maior. O evento terá bolão de apostas, quiz cinéfilo, concurso de sósias de Wagner Moura e transmissão simultânea em salas do Estação Net Rio e do Estação Net Botafogo.

Mais do que festa, Borges vê nisso um efeito direto do momento que o Cinema Brasileiro atravessa.

“Muita gente que não frequentava cinema de arte começou a aparecer. Pessoas que iam ao shopping ver blockbuster foram à Estação para ver Ainda Estou Aqui ou O Agente Secreto. E quando chegam lá descobrem um monte de outros filmes”.

Segundo ele, esse movimento ajuda a revelar algo curioso.

“O Brasil produz cerca de 300 filmes por ano, mas o grande público conhece 4 ou 5. Quando as pessoas entram na sala de cinema por causa de um filme brasileiro que virou fenômeno, elas descobrem que existe muito mais”.

Dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, O Agente Secreto tornou-se um caso raro: um filme autoral que conseguiu dialogar com o público sem abrir mão de sua identidade estética.

O longa já ultrapassou 2,4 milhões de espectadores, tornando-se o filme mais visto no Brasil entre todos os indicados ao Oscar deste ano.

Nas redes sociais, Kleber tem demonstrado uma mistura de celebração e responsabilidade diante da mobilização nacional.

O Diretor agradeceu recentemente a “energia incrível” do público brasileiro e destacou algo que considera essencial para o sucesso do filme: as políticas públicas de incentivo ao audiovisual.

Para ele, o reconhecimento internacional também tem um significado cultural mais amplo.

O Cineasta afirma que a presença do filme no Oscar representa uma forma de “soft power brasileiro” — a capacidade de o país projetar sua cultura e sua identidade no palco global.

Ao mesmo tempo, Kleber reconhece a pressão e já comentou sentir “medo de decepcionar” diante da enorme expectativa criada no Brasil.

Entre todas as categorias, especialistas apontam uma em que o Brasil aparece particularmente forte.

A nova categoria de Melhor Direção de Elenco, criada pela Academia em 2024 e inaugurada nesta edição do Oscar, pode marcar um momento histórico para o país.

O brasileiro Gabriel Domingues foi indicado pelo trabalho em O Agente Secreto, responsável pela seleção de mais de 60 atores, combinando nomes consagrados e novos valores.

Mesmo com o entusiasmo brasileiro, a disputa continua aberta. Veículos especializados americanos apontam Pecadores, de Ryan Coogler, como possível grande vencedor da noite.

Publicações ligadas ao cinema independente foram mais generosas com o longa brasileiro. O site IndieWire, por exemplo, colocou O Agente Secreto no topo do Ranking entre os indicados a Melhor Filme.

Entre os favoritos a Melhor Ator estão Timothée Chalamet, vencedor do Globo de Ouro, e Michael B. Jordan. Mas há também histórias que Hollywood adora: trajetórias longas esperando reconhecimento.

É impossível não lembrar, por exemplo, de Ethan Hawke — um dos atores mais respeitados de sua geração que, surpreendentemente, nunca levou uma estatueta.

Enquanto isso, o Brasil torce por Wagner Moura, que chega à corrida com enorme capital simbólico após sua vitória no Globo de Ouro.

Se os prognósticos internacionais são cautelosos, no Brasil o sentimento é outro. Há algo que números e estatísticas não capturam: a mobilização afetiva em torno de um filme.

Nunca tantos portais, canais de Cinema, podcasts e perfis nas redes sociais acompanharam tão intensamente a temporada de premiações.

Talvez porque o Cinema Brasileiro esteja vivendo um momento raro: o de voltar a se ver no centro da conversa mundial.

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