Resistência do Irã pressiona Estados Unidos a encerrarem guerra

Lucas Pordeus León
Agência Brasil de Comunicação
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Frame: Rede Globo - Jornal Nacional
Brasília/DF - A capacidade de resistência da República Islâmica do Irã e as retaliações contra aliados dos Estados Unidos no Golfo Pérsico, assim como os impactos sobre o comércio do petróleo, estão pressionando a Casa Branca a encerrar o conflito sem alcançar o objetivo de “mudança de regime” em Teerã. Essa é avaliação de especialistas consultados pela Agência Brasil.

O cientista político e especialista em geopolítica Ali Ramos destacou que o Irã conseguiu afetar o sistema de radares dos Estados Unidos no Oriente Médio e impôs perdas importantes à cadeia do petróleo global.

“Os Estados Unidos não têm como derrubar o governo iraniano sem invasão terrestre, o que traria baixas gigantescas. A topografia do Irã inviabiliza qualquer ação rápida. Os Estados Unidos simplesmente entraram num atoleiro e Trump não sabe como sair”, avalia o especialista em defesa e estudos sobre a Ásia.

Os radares dos Estados Unidos no Oriente Médio afetados por Teerã eram responsáveis pela interceptação dos mísseis iranianos.

Há relatos de radares atingidos no Kuwait, Catar, Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes Unidos, segundo análise de imagens de satélites e vídeos do jornal New York Times.

“Toda essa cobertura satelital e de radar faz com que os Estados Unidos tenham olhos no terreno. Com isso degradado, as baixas aumentam, o tempo do alerta [contra mísseis do Irã] em Israel diminui. Por isso, agora tem vídeo de mísseis entrando toda hora em Israel, que os interceptadores não conseguem mais barrar”, completou.

Aliados de Washington no Golfo passaram a pedir o fim do conflito, como o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Catar, Majed al-Ansari.

“Chegar rapidamente à mesa de negociações e suspender os ataques serviria aos interesses dos povos da região, bem como à paz e segurança internacionais, além de fortalecer a estabilidade econômica global”, disse al-Ansari, de acordo coma Al Jazzera, um veículo de comunicação árabe.

O Professor de Relações Internacionais do Ibmec São Paulo, Alexandre Pires, ponderou à Agência Brasil que os Estados Unidos esperavam conseguir uma troca de regime rápida por meio do assassinato do líder Supremo Ali Khamenei.

“O Irã tem apresentado uma resiliência muito mais forte do que se esperava. Inclusive, escolhendo uma liderança suprema sem nenhum tipo de negociação, e que dá um sinal de que o regime vai continuar na mesma linha que já seguia com o Khamenei”, comentou.

Pires acrescentou que a pressão sobre os mercados do petróleo, que levou o presidente estadunidense Donald Trump a relaxar as sanções contra a Rússia para aliviar os preços no mercado global, tem preocupado os aliados de Trump no mundo e internamente, com o preço do combustível aumentando nos Estados Unidos.

“Ainda que tenha sido dito no início que duraria 4, 5 semanas, obviamente que esse não era o tempo que os Estados Unidos queriam. Isso vai fazendo com que os Estados Unidos mudem talvez o foco atual de uma guerra completa, de ter que ficar o tempo necessário até você ter uma troca das lideranças”, completou.

Donald Trump disse nesta terca-feira (10/03), em entrevista à Fox News, que não ficou feliz com a escolha do novo líder Supremo so Irã, mas que "é possível" que venha a negociar com Teerã.

ISRAEL
Para o especialista do Ibmec, Alexandre Pires, Israel deve resistir a encerrar o conflito uma vez que quer aproveitar o máximo para enfraquecer o Irã.

“Há um certo sinal de divisão nos dois aliados. Isso não foi tornado público, mas há um sinal de falas contraditórias de um lado e de outro”, disse.

Para Pires, o Irã conseguiu afetar a cadeia do petróleo ao bloquear o canal comercial do Golfo Pérsico, Estreito de Ormuz e Golfo de Oman.

“Isso faz com que tentem forçar um recuo ou uma negociação americana-israelense em razão da pressão feita pela comunidade internacional sobre Israel e Estados Unidos com relação à cadeia energética mundial”, completou.

Em entrevista nesta terça-feira (10/03), o Ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, disse que o país não quer uma guerra sem fim.

“Consultaremos nossos amigos americanos quando acharmos que é o momento certo para isso. Não estamos buscando uma guerra sem fim”, disse Saar a repórteres em Jerusalém, segundo noticiou o jornal israelense The Times of Israel.

Uma das dificuldades para encerrar a Guerra, na avaliação do Cientista Político Ali Ramos, é que a manutenção do regime no Irã representaria uma derrota para Casa Branca.

“O Irã vai ser o primeiro país da história que atacou tantas bases dos Estados Unidos ao mesmo tempo e sobreviveu. É por isso o desespero do Trump. Os países da região não vão mais confiar nos Estados Unidos no médio e longo prazo enquanto garantidor da sua segurança”, disse.

Ramos argumenta que a Guerra contra o Irã deve modificar a arquitetura de poder e segurança do Oriente Médio ao mostrar que as bases dos Estados Unidos na região não poderiam defender os países aliados da Casa Branca.

“Isso já estava acontecendo, os Emirados Árabes Unidos já firmaram um pacto de defesa com a Índia, a Arábia Saudita com o Paquistão”, completou.

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