Igreja Católica defende Democracia e alerta para "graves retrocessos" no Brasil

Daniella Almeida
Foto: Marcelo Camargo
Agência Brasil de Comunicação
www.agenciabrasil.ebc.gov.br
Brasília/DF - A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) manifestou "grave preocupação" com alguns retrocessos no campo da ética e do cuidado com os pobres.

A Carta de Ano-Novo de lideranças católicas foi publicada na última segunda-feira (29/12).

Sobre a Democracia no país, a entidade afirma que o ano de 2025 foi marcado por "profundas tensões e retrocessos sociais" que fragilizaram a confiança nas instituições.

“No âmbito da convivência democrática, o ano de 2025 foi marcado por profundas tensões e retrocessos sociais, que deixaram feridas abertas no tecido social. Algumas experiências fragilizaram seriamente a confiança nas instituições e desafiaram as pessoas de boa vontade, que acreditam numa sociedade mais justa e fraterna”, diz a mensagem.

Para a entidade, a Democracia é um "patrimônio do povo brasileiro" que exige cuidado, diálogo e respeito aos freios e contrapesos institucionais.

“A Democracia, com sua exigência de diálogo, suas instituições, seus freios e contrapesos, é patrimônio do povo brasileiro e precisa de cuidado e promoção. Embora imperfeita, ela é terreno fértil onde a justiça e a verdade podem se abraçar (cf. Sl 85,10) e florescer”.

A entidade defende que a Nação deve reencontrar o caminho da pacificação, do diálogo e do respeito mútuo.

O balanço crítico de 2025 dos Bispos brasileiros aponta que a convivência democrática foi prejudicada por interesses econômicos e disputas de poder que enfraqueceram mecanismos essenciais de controle.

Entre os pontos citados pela Igreja, destacam-se:
* Conduta de autoridades: o texto denuncia "a perda de decoro e a falta de responsabilidade por parte de algumas autoridades, especialmente do nosso Congresso Nacional”.
* Enfraquecimento da ética e o aumento da corrupção na vida pública.
* Fragilização dos mecanismos democráticos, por causa de interesses econômicos e disputas de poder.
* Flexibilização de marcos legais: a CNBB critica as mudanças na Lei da Ficha Limpa e na Lei Geral do Licenciamento Ambiental.
* Ameaças à proteção ambiental e aos povos originários e tradicionais, neste último caso, com a aprovação do marco temporal no Congresso Nacional.
* Violência e intolerância: a mensagem condena o discurso de ódio, a manipulação da verdade e o aumento, especialmente, de crimes como o feminicídio.
* Pagamento de juros e amortizações da dívida: deixa o país sem capacidade de maior investimento em áreas como Educação, Saúde, Moradia e Segurança.
* Desigualdade social, que continua marginalizando muitos.
* Uso de drogas e o crescimento de “economias ilícitas”.

CENÁRIO NACIONAL
Apesar das críticas, a carta também elenca vitórias celebradas em 2025, no Brasil.

No campo social e econômico, a Igreja Católica destacou o fortalecimento do SUS (Sistema Único de Saúde), por meio do aumento da taxa de médicos por habitante.

No campo econômico, a CNBB valorizou a queda da taxa de desemprego, a estabilidade da inflação e o relativo crescimento do PIB (Produto Interno Bruto).

Como fato marcante no comércio de bens e serviços em 2025, a instituição não esqueceu da “retirada de algumas tarifas norte-americanas sobre vários produtos brasileiros”, negociada pelo Governo Federal, e “a abertura de novos mercados internacionais”.

No setor ambiental, os Bispos destacaram o protagonismo do Brasil em energias renováveis e a realização da COP30 (30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas) em Belém/PA, o que reforçou o compromisso com o cuidado do planeta Terra e combate à crise climática.

“Reafirmamos que nenhum projeto político pode se sobrepor à vida, ao respeito à pessoa humana, à justiça social e ao cuidado com a casa comum”.

Também foram mencionadas como experiências positivas a taxação de grandes fortunas e a mobilização popular sobre a redução da jornada de trabalho, a chamada escala 6x1, com a realização de um plebiscito popular.

VALORES CRISTÃOS
Como instituição que reúne os Bispos da Igreja Católica no país, a mensagem reafirma a posição firme da Igreja contra qualquer iniciativa de legalização do aborto e defende a "sacralidade da vida desde a concepção até o seu fim natural” como o primeiro dos direitos e dom gratuito de Deus.

Os Bispos vão além e ressaltam outros aspectos contemporâneos que devem ser observados em defesa da vida humana.

“Defender a vida, contudo, implica também lutar contra a fome, a miséria e a desigualdade. Defender a vida significa criar condições para que 'todos tenham vida e vida em abundância' (Jo 10,10)”, frisa a CNBB.

O texto termina com a citação do sonho de Dom Helder Câmara e a poesia de Thiago de Mello para reforçar que, embora o cenário atual apresente dificuldades, a esperança deve ser a força transformadora para 2026. “Faz escuro, mas eu canto, porque a manhã vai chegar”.

A carta é assinada pelo presidente da CNBB e Arcebispo de Porto Alegre/RS, Dom Jaime Cardeal Spengler; pelo Arcebispo de Goiânia/GO e 1º vice-presidente da instituição, Dom João Justino de Medeiros Silva; pelo 2º vice-presidente da entidade e Arcebispo de Olinda/PE e Recife/PE, Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa; e pelo secretário-geral da Conferência e Bispo Auxiliar de Brasília/DF, Dom Ricardo Hoepers (foto da postagem).

A CONFERÊNCIA
Fundada em 1952, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) tem a função de coordenar a ação evangelizadora e pastoral da Igreja Católica e promover o bem comum e a justiça social.

Como parte da Igreja Católica, a CNBB atua em questões religiosas, mas também tem voz ativa na sociedade civil e comumente trata de temas de Direitos Humanos, ética e política, em especial nas Campanhas anuais da Fraternidade, iniciativas são realizadas durante o período da Quaresma Cristã.

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