Rafael Cardoso
Foto: Rafa Neddermeyer
Agência Brasil de Comunicação
www.agenciabrasil.ebc.gov.br
Santarém/PA - Pelo terreno, se acomodam mudas de açaí, cumaru, andiroba, preciosa, gombeira, itaúba.
Em uma área antes degradada na comunidade de Jaderlândia, em Santarém/PA, no Oeste do Pará, surgem novas possibilidades de reflorestamento para a Amazônia.
O Biólogo Sidcley Matos Pereira e a Veterinária Adna Picanço decidiram construir um negócio ligado à recuperação do bioma.
O Viveiro Florestal Ardosa nasceu em 2018, quando os buscavam uma alternativa de trabalho que não demandasse tantas viagens como antes, mas que os mantivesse na área ambiental.
O nascimento da filha Catarina reforçou a necessidade de fixar raízes e o sentido pessoal do negócio.
“A gente queria construir algo junto, perto da família. E mostrar para ela [a filha] que existe um futuro sendo plantado aqui”, diz Adna Picanço.
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O casal afirma que o projeto também nasceu de uma percepção prática adquirida no trabalho com a fauna silvestre.
“Todo animal resgatado, que precisava de cirurgia, estava em área degradada. A gente percebeu que não bastava só soltar os animais, precisava reflorestar para que aquela fauna tivesse alimento”, conta a Veterinária.
Hoje, o empreendimento se consolidou como uma das referências regionais em restauração ecológica e produção de mudas nativas da Amazônia.
Com cultivo de mais de 110 espécies, o viveiro passa por uma expansão acelerada.
Apenas no primeiro semestre de 2026, a produção deve alcançar entre 200 mil e 250 mil mudas. A média anterior era de 100 mil por ano.
O negócio também recebeu cerca de R$ 190 mil em equipamentos e estrutura da CIB (Conservação Internacional Brasil).
O recurso será usado para ampliar áreas de sombreamento, construir um galpão de trabalho e instalar novas bancadas de produção.
O viveiro atende a diferentes demandas, a maior parte delas vinda de produtores que precisam recompor áreas degradadas depois de receber notificações ambientais.
A preocupação, segundo Sidcley, é evitar modelos homogêneos de reflorestamento, que priorizam poucas espécies e empobrecem os ecossistemas.
“As pessoas chegam e se surpreendem quando veem que trabalhamos com tantas espécies. Geralmente os viveiros têm só aquelas que crescem rápido e dão retorno rápido. A gente quer atender restauração ecológica de verdade”, diz o Biólogo.
“Tem espécies de crescimento rápido, espécies que precisam de sombreamento, espécies voltadas para produção de frutos ou madeira no futuro. A gente pensa nessa variedade justamente para atender à restauração ecológica, pensando na fauna e na diversidade dentro do projeto”, complementa.
A origem das sementes também é controlada. Como o viveiro tem licença do Ministério da Agricultura e Pecuária, todo o material precisa ter rastreabilidade.
As sementes vêm de coletores, associações e laboratórios de diferentes regiões da Amazônia, incluindo os estados do Acre, Amazonas, Pará e de Mato Grosso.
A produção envolve ainda uma rede de Pesquisadores, Estudantes e Universidades.
Siga o perfil do Blog do Teófilo no Facebook O viveiro mantém parcerias com a Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará), que participa de discussões técnicas e ajuda na identificação de espécies, fungos e métodos de manejo.
REFLORESTAMENTO
Negócios como os do Viveiro Florestal Ardosa dialogam com problemas históricos do Brasil em conter a degradação de matas nativas e promover ações de recuperação florestal.
Dados divulgados recentemente no RAD (Relatório Anual do Desmatamento), do MapBiomas, indicam que o desmatamento no Brasil caiu 20,6% em 2025 na comparação com o ano anterior.
Ainda assim, o país perdeu 984,7 mil hectares de vegetação nativa no período.
Na Amazônia, foram desmatados 289,4 mil hectares em 2025, uma queda de 23,5% na comparação com 2024.
Ainda assim, a floresta perdeu, em média, 792 hectares por dia.
A estimativa é de que o bioma já tenha perdido mais de 52 milhões de hectares de vegetação nativa desde 1985, o que representa aproximadamente de 12% a 16% da área original.
O Pará é um dos Estados mais afetados. Entre 2019 e 2025, o Estado concentrou mais de 2 milhões de hectares desmatados, embora tenha registrado redução de 40% em 2025.
O principal instrumento do Governo Federal para recuperar áreas degradadas é o Planaveg (Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa), coordenado pelo Ministério do Meio-Ambiente.
A meta nacional estabelecida pela Proveg (Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa) é recuperar 12 milhões de hectares até 2030, dos quais 4,8 milhões de hectares estão na Amazônia.
A plataforma Observatório da Restauração – hospedada pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura – monitora o progresso das iniciativas de restauração em andamento no país.
No momento, 39.710 hectares na Amazônia estão nesse processo, sendo 11.150 hectares no Pará.
RESTAURAÇÃO
O Pesquisador Rafael Rode, Professor do Instituto de Biodiversidade e Florestas da Ufopa, afirma que iniciativas como o Viveiro Florestal Ardosa se tornaram estratégicas diante do passivo ambiental acumulado na Amazônia.
Segundo ele, com o avanço histórico do desmatamento, é preciso investir em recuperação com rigor científico e planejamento ecológico.
“A recuperação dessas áreas envolve conhecimento específico para manter o equilíbrio ambiental. Sem um trabalho embasado cientificamente, você pode ter assoreamento de rios, erosão e perda das propriedades do solo”, explica Rafael Rode.
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Ele destaca a importância de se priorizar espécies nativas.
“Muitas vezes se usa espécie exótica de crescimento rápido, mas isso pode gerar desequilíbrios e até dominar o ambiente. É preciso cuidado técnico”.
O Professor coordena pesquisas em sistemas agroflorestais e reflorestamento na fazenda experimental da universidade, com foco em sustentabilidade e geração de renda.
“Tentar conciliar recuperação ambiental com ganho econômico é o mais importante hoje. Você coloca espécies que também geram renda, como cumaru e andiroba, e reforça a concepção de que a floresta plantada pode gerar economia e mais ganhos do que a floresta derrubada”, avalia.
O crescimento de negócios ligados à restauração ambiental e ao uso sustentável da floresta está dentro de uma concepção mais ampla sobre bioeconomia na Amazônia.
Professora e Doutora em Ciências Agrárias da Ufopa, Patrícia Chaves de Oliveira explica que esse modelo econômico depende diretamente da natureza e dos modos de vida das populações locais.
“A bioeconomia é baseada na biodiversidade. Ela pode envolver plantas, pesca, turismo de base comunitária, artesanato e produtos florestais”, diz Patrícia.
“A biodiversidade da Amazônia permite diferentes cadeias econômicas. Mas é preciso garantir que essas populações também sejam donas dos próprios negócios e não apenas fornecedoras de matéria-prima”, complementa.
Segundo o Diretor Técnico do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), Bruno Quick, projetos liderados pela instituição têm procurado fortalecer essas cadeias econômicas sustentáveis.
Exemplos são o Bioma Amazônico e a Iconografia Local, que valorizam identidades e conhecimentos tradicionais da região.
“Esses projetos fazem parte do propósito de transformar a riqueza cultural e ambiental da Amazônia em um diferencial competitivo para os produtos locais, o que gera valor agregado, abre novos mercados e promove inclusão social e econômica”, afirma Bruno Quick.
Para o Diretor, é preciso repensar a matriz econômica que orienta há décadas o desenvolvimento da região.
“A bioeconomia traz a compreensão de que outro modelo de crescimento é possível, onde a floresta em pé ganha valor real”.
Valor que, segundo o Biólogo Sidcley Matos Pereira, cresce à medida que é compartilhado com outros trabalhadores e famílias da comunidade.
“Sem os coletores de sementes não existe muda, não existe viveiro. A gente valoriza toda essa cadeia, desde quem coleta na floresta até quem organiza as mudas no caminhão para chegar ao cliente”, diz.
“Família é muito importante nesse processo. E a família aumenta quando temos uma conexão com as pessoas que produzem junto. Não valorizamos apenas a nossa família. Valorizamos também as deles”, finaliza.
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Foto: Rafa Neddermeyer
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www.agenciabrasil.ebc.gov.br
Santarém/PA - Pelo terreno, se acomodam mudas de açaí, cumaru, andiroba, preciosa, gombeira, itaúba.
Em uma área antes degradada na comunidade de Jaderlândia, em Santarém/PA, no Oeste do Pará, surgem novas possibilidades de reflorestamento para a Amazônia.
O Biólogo Sidcley Matos Pereira e a Veterinária Adna Picanço decidiram construir um negócio ligado à recuperação do bioma.
O Viveiro Florestal Ardosa nasceu em 2018, quando os buscavam uma alternativa de trabalho que não demandasse tantas viagens como antes, mas que os mantivesse na área ambiental.
O nascimento da filha Catarina reforçou a necessidade de fixar raízes e o sentido pessoal do negócio.
“A gente queria construir algo junto, perto da família. E mostrar para ela [a filha] que existe um futuro sendo plantado aqui”, diz Adna Picanço.
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O casal afirma que o projeto também nasceu de uma percepção prática adquirida no trabalho com a fauna silvestre.
“Todo animal resgatado, que precisava de cirurgia, estava em área degradada. A gente percebeu que não bastava só soltar os animais, precisava reflorestar para que aquela fauna tivesse alimento”, conta a Veterinária.
Hoje, o empreendimento se consolidou como uma das referências regionais em restauração ecológica e produção de mudas nativas da Amazônia.
Com cultivo de mais de 110 espécies, o viveiro passa por uma expansão acelerada.
Apenas no primeiro semestre de 2026, a produção deve alcançar entre 200 mil e 250 mil mudas. A média anterior era de 100 mil por ano.
O negócio também recebeu cerca de R$ 190 mil em equipamentos e estrutura da CIB (Conservação Internacional Brasil).
O recurso será usado para ampliar áreas de sombreamento, construir um galpão de trabalho e instalar novas bancadas de produção.
O viveiro atende a diferentes demandas, a maior parte delas vinda de produtores que precisam recompor áreas degradadas depois de receber notificações ambientais.
A preocupação, segundo Sidcley, é evitar modelos homogêneos de reflorestamento, que priorizam poucas espécies e empobrecem os ecossistemas.
“As pessoas chegam e se surpreendem quando veem que trabalhamos com tantas espécies. Geralmente os viveiros têm só aquelas que crescem rápido e dão retorno rápido. A gente quer atender restauração ecológica de verdade”, diz o Biólogo.
“Tem espécies de crescimento rápido, espécies que precisam de sombreamento, espécies voltadas para produção de frutos ou madeira no futuro. A gente pensa nessa variedade justamente para atender à restauração ecológica, pensando na fauna e na diversidade dentro do projeto”, complementa.
A origem das sementes também é controlada. Como o viveiro tem licença do Ministério da Agricultura e Pecuária, todo o material precisa ter rastreabilidade.
As sementes vêm de coletores, associações e laboratórios de diferentes regiões da Amazônia, incluindo os estados do Acre, Amazonas, Pará e de Mato Grosso.
A produção envolve ainda uma rede de Pesquisadores, Estudantes e Universidades.
Siga o perfil do Blog do Teófilo no Facebook O viveiro mantém parcerias com a Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará), que participa de discussões técnicas e ajuda na identificação de espécies, fungos e métodos de manejo.
REFLORESTAMENTO
Negócios como os do Viveiro Florestal Ardosa dialogam com problemas históricos do Brasil em conter a degradação de matas nativas e promover ações de recuperação florestal.
Dados divulgados recentemente no RAD (Relatório Anual do Desmatamento), do MapBiomas, indicam que o desmatamento no Brasil caiu 20,6% em 2025 na comparação com o ano anterior.
Ainda assim, o país perdeu 984,7 mil hectares de vegetação nativa no período.
Na Amazônia, foram desmatados 289,4 mil hectares em 2025, uma queda de 23,5% na comparação com 2024.
Ainda assim, a floresta perdeu, em média, 792 hectares por dia.
A estimativa é de que o bioma já tenha perdido mais de 52 milhões de hectares de vegetação nativa desde 1985, o que representa aproximadamente de 12% a 16% da área original.
O Pará é um dos Estados mais afetados. Entre 2019 e 2025, o Estado concentrou mais de 2 milhões de hectares desmatados, embora tenha registrado redução de 40% em 2025.
O principal instrumento do Governo Federal para recuperar áreas degradadas é o Planaveg (Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa), coordenado pelo Ministério do Meio-Ambiente.
A meta nacional estabelecida pela Proveg (Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa) é recuperar 12 milhões de hectares até 2030, dos quais 4,8 milhões de hectares estão na Amazônia.
A plataforma Observatório da Restauração – hospedada pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura – monitora o progresso das iniciativas de restauração em andamento no país.
No momento, 39.710 hectares na Amazônia estão nesse processo, sendo 11.150 hectares no Pará.
RESTAURAÇÃO
O Pesquisador Rafael Rode, Professor do Instituto de Biodiversidade e Florestas da Ufopa, afirma que iniciativas como o Viveiro Florestal Ardosa se tornaram estratégicas diante do passivo ambiental acumulado na Amazônia.
Segundo ele, com o avanço histórico do desmatamento, é preciso investir em recuperação com rigor científico e planejamento ecológico.
“A recuperação dessas áreas envolve conhecimento específico para manter o equilíbrio ambiental. Sem um trabalho embasado cientificamente, você pode ter assoreamento de rios, erosão e perda das propriedades do solo”, explica Rafael Rode.
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Ele destaca a importância de se priorizar espécies nativas.
“Muitas vezes se usa espécie exótica de crescimento rápido, mas isso pode gerar desequilíbrios e até dominar o ambiente. É preciso cuidado técnico”.
O Professor coordena pesquisas em sistemas agroflorestais e reflorestamento na fazenda experimental da universidade, com foco em sustentabilidade e geração de renda.
“Tentar conciliar recuperação ambiental com ganho econômico é o mais importante hoje. Você coloca espécies que também geram renda, como cumaru e andiroba, e reforça a concepção de que a floresta plantada pode gerar economia e mais ganhos do que a floresta derrubada”, avalia.
O crescimento de negócios ligados à restauração ambiental e ao uso sustentável da floresta está dentro de uma concepção mais ampla sobre bioeconomia na Amazônia.
Professora e Doutora em Ciências Agrárias da Ufopa, Patrícia Chaves de Oliveira explica que esse modelo econômico depende diretamente da natureza e dos modos de vida das populações locais.
“A bioeconomia é baseada na biodiversidade. Ela pode envolver plantas, pesca, turismo de base comunitária, artesanato e produtos florestais”, diz Patrícia.
“A biodiversidade da Amazônia permite diferentes cadeias econômicas. Mas é preciso garantir que essas populações também sejam donas dos próprios negócios e não apenas fornecedoras de matéria-prima”, complementa.
Segundo o Diretor Técnico do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), Bruno Quick, projetos liderados pela instituição têm procurado fortalecer essas cadeias econômicas sustentáveis.
Exemplos são o Bioma Amazônico e a Iconografia Local, que valorizam identidades e conhecimentos tradicionais da região.
“Esses projetos fazem parte do propósito de transformar a riqueza cultural e ambiental da Amazônia em um diferencial competitivo para os produtos locais, o que gera valor agregado, abre novos mercados e promove inclusão social e econômica”, afirma Bruno Quick.
Para o Diretor, é preciso repensar a matriz econômica que orienta há décadas o desenvolvimento da região.
“A bioeconomia traz a compreensão de que outro modelo de crescimento é possível, onde a floresta em pé ganha valor real”.
Valor que, segundo o Biólogo Sidcley Matos Pereira, cresce à medida que é compartilhado com outros trabalhadores e famílias da comunidade.
“Sem os coletores de sementes não existe muda, não existe viveiro. A gente valoriza toda essa cadeia, desde quem coleta na floresta até quem organiza as mudas no caminhão para chegar ao cliente”, diz.
“Família é muito importante nesse processo. E a família aumenta quando temos uma conexão com as pessoas que produzem junto. Não valorizamos apenas a nossa família. Valorizamos também as deles”, finaliza.
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Rafael Cardoso e Rafa Neddermeyer, profissionais da Agência Brasil, viajaram para o Pará a convite do Sebrae.



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