Guerra, tarifas e menos imposto a ricos geram dívida recorde nos Estados Unidos

Lucas Pordeus León
Foto: Valter Campanato
Agência Brasil de Comunicação
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Brasília/DF - A dívida pública recorde nos Estados Unidos, que ultrapassou os US$ 40 trilhões pela primeira vez na história, foi motivada, principalmente, pela redução de impostos para os ricos, pela inflação causada pela guerra no Oriente Médio – que pressionou o preço dos combustíveis –, e pelas tarifas à importação do governo de Donald Trump.

A avaliação é de Economistas consultados pela Agência Brasil, que acrescentam como fatores para a dívida recorde: a manutenção dos elevados gastos militares, próximo a US$ 1 trilhão, e o aumento dos gastos com juros da dívida, que chegou a US$ 1,1 trilhão, montante que é mais que o dobro de 2021, quando os juros consumiram US$ 419 bilhões dos contribuintes.

Entre as razões para o aumento dos juros, estaria a inflação causada pela guerra e o “risco Trump” motivado pela política agressiva da Casa Branca, que causa incertezas no mercado, como no caso do conflito tarifário com o Canadá.

Os especialistas sustentam que essa política pressiona os juros cobrados pelos títulos do Tesouro estadunidense.

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Apesar do número impressionante de US$ 40 trilhões, que dobrou desde 2017, os Economistas rejeitam que os Estados Unidos estejam em risco de insolvência, quando não se consegue pagar o que se deve.

Além disso, alertam que a situação fiscal da potência econômica tende a pressionar o Brasil a manter as taxas de juros em nível elevado.

SOLVÊNCIA
O Professor do Instituto de Economia da Unicamp (Universidade de Campinas) Pedro Paulo Zahluth Bastos destacou que o número de US$ 40 trilhões não indica risco de insolvência porque, entre outros motivos, os Estados Unidos emitem a própria moeda e têm o Dólar como principal reserva monetária do planeta.

“Um governo assim não quebra contra a vontade. Se o mercado não quiser esses títulos ao preço corrente, o FED [Federal Reserve, o Banco Central dos Estados Unidos] pode comprá-los”, explica Pedro Bastos.

“Foi o que fez em 2020, quando expandiu o balanço em quase US$ 3 trilhões em 3 meses. E foi o que fez entre 1942 e 1951, quando travou o juro dos títulos longos em 2,5%”, completa.

Após o anúncio da dívida pública recorde, a Secretaria de Tesouro dos Estados Unidos se apressou em comunicar o aumento das operações para compra de títulos no mercado, que deve dobrar de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões a partir de 9 de Setembro.

O Economista e Doutor em História Pedro Faria ponderou à Agência Brasil que o valor de US$ 40 trilhões, em si, “não diz muita coisa” sobre a capacidade de pagamento dos Estados Unidos.

“A gente sempre compara com o tamanho do país e com a realidade econômica ao redor. É uma realidade das principais economias desenvolvidas estarem em déficit desde 2008”, comenta Faria.

O Economista é associado ao Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Desde o final da 2ª Guerra Mundial, os títulos do Tesouro dos Estados Unidos são considerados o ativo “mais seguro” no mundo.

Segundo o Professor Pedro Bastos, ainda não há desconfiança no mercado em relação a capacidade de pagamento da dívida pelos Estados Unidos.

“Os estrangeiros continuam comprando. O que subiu foi o preço cobrado, não a recusa em comprar”, pontua.

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Pedro Bastos acresta que dois terços da dívida no mercado estão em mãos domésticas nos Estados Unidos e US$ 4,5 trilhões estão no próprio FED, o que reduz riscos de insolvência.

Além disso, US$ 8 trilhões da dívida estão nas mãos do próprio governo, com US$ 32 trilhões no mercado.

“O mercado detém cerca de 100% do PIB [Produto Interno Bruto] em dívida, similar ao recorde de 106% de 1946, ao fim da 2ª guerra”, acrescentou o especialista da Unicamp.

O único risco de calote dos Estados Unidos seria político, quando o Congresso se recusa a autorizar o aumento do teto da dívida.

Mas o Professor Pedro Paulo Zahluth Bastos alertou também para o problema dos gastos crescentes com juros.

“O único risco ligado à dívida hoje é o de juros longos mais altos. Mas a causa imediata não é o tamanho da dívida. É a inflação, puxada pelo petróleo do conflito no Oriente Médio e pelas tarifas”, explica.

Em apenas 5 meses, a dívida cresceu US$ 1 trilhão, superando as expectativas de analistas.

O CBO (Escritório de Orçamento do Congresso) dos Estados Unidos calculava chegar aos US$ 40 trilhões apenas em 2027.

A política econômica focada no corte de impostos para os ricos, adotada nos 2 mandatos de Trump, motivou parte do aumento do endividamento ao reduzir a arrecadação, explica o Economista Pedro Faria.

“O Trump aposta nessa política característica dos Republicanos, que é tirar a tributação dos ricos sob a justificativa de tentar expandir a Economia”, afirma Pedro Faria.

“O que se vê é um aumento do endividamento dos Estados Unidos no governo Trump 2 por conta dessa abordagem de política econômica”, explicou.

Em 2025, o governo Trump aprovou projeto com mais corte de impostos para ricos que aumentaram a previsão do déficit dos Estados Unidos em US$ 4,7 trilhões em 10 anos, ao mesmo tempo que cortou US$ 1 trilhão da saúde pública nesse período.

O Professor da Unicamp Pedro Bastos acrescentou que a menor tributação dos ricos nos Estados Unidos tem contribuído ainda para concentrar a renda do país, sendo a dívida recorde um sintoma do conflito pela distribuição dessa riqueza dentro dos Estados Unidos.

“A receita do imposto sobre lucros caiu 23% neste ano fiscal. Já os juros vão para quem tem títulos: fundos, bancos e as famílias mais ricas. O 1% mais rico detém metade das ações do país”, comenta Bastos.

O especialista da Unicamp argumentou que os Estados Unidos não gastam demais, mas arrecadam de menos.

A carga tributária nos Estados Unidos é de cerca de 25% do PIB, contra 34% na média da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que reúne países entre os mais desenvolvidos do mundo.

RISCO TRUMP
Para o especialista Pedro Faria, do Instituto Economias, o que pode preocupar o Tesouro dos Estados Unidos é a tendência, observada entre governos, Estados e empresas em todo o mundo, de reduzir o uso de títulos dos Estados Unidos como opção para manter a liquidez da Economia.

“Diversos governos têm reduzido o estoque de títulos dos Estados Unidos, como Brasil e China”, comenta Pedro Faria.

“Isso porque veem a política econômica da Casa Branca como errática e não muito racional. Os agentes econômicos têm medo de se expor a sanções ou ter os ativos congelados, como ocorreu diversas vezes”.

Para o Economista da Unicamp Pedro Bastos, os juros mais altos cobrados pelos títulos dos Estados Unidos é a resposta do mercado aos ataques do governo Trump aos pilares que dão confiança a esses papéis: um FED autônomo, tribunais judiciais independentes e aliados sendo tratados como aliados.

“Por exemplo, o uso do acesso ao mercado americano como chantagem [tarifaços]. Os bancos centrais compram ouro em ritmo recorde desde 2022 por isso, não pelo tamanho da dívida”, cita.

“Se a dívida um dia virar problema, não será por chegar a US$ 40 trilhões ou US$ 50 trilhões. Será porque a política destruiu o que a tornava desejada”, completa.

Para o especialista, é o “risco Trump” que pressiona o rendimento dos títulos públicos de 30 anos dos Estados Unidos, que alcançaram 5,33% em 18 de Agosto, o maior nível desde 2007.

Esse nível de juros dos títulos longos é o que pressiona os gastos com a dívida do país norte-americano.

Apesar dos juros mais altos cobrados pelos títulos de longo prazo do Tesouro dos Estados Unidos, Bastos avalia que o mercado segue investindo nos papéis do Estado do país norte-americano.

“A China reduziu o estoque de títulos dos Estados Unidos de US$ 1,3 trilhão, em 2013, para US$ 700 bilhões, e nada aconteceu”, pondera.

“O Dólar ainda responde por 57% das reservas mundiais, o euro por 20% e o yuan por 2%”, completa.

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